Domingo, 12 de Fevereiro de 2006

Who Made Who - Space For Rent





O tempo corria meloso, como se de um relógio sonolento se tratasse. Eram 16:30 marcava o relógio da igreja da Lapa.
Artur acabava de se levantar. Arrumou os seus pertences dentro de um saco do continente e escondeu-os por entre o arvoredo de um terreno baldio, que há muito servia as suas necessidades e era aquilo a que chamava “casa”.
Como uma máquina numa fábrica qualquer, as suas mãos começaram a tremer fervorosamente no instante em que os badalos colidiram com o sino no alto da igreja.
Com a visão deturpada e os olhos repletos de insónia, apanhou o primeiro autocarro que avistou sem se interessar com o destino, pensando apenas numa forma de cessar aquele horrível tremor que se lhe afigurava todos os dias.
Adormeceu. :
- A senha por favor.
- Ah… eu tinha aqui… desculpe…
- A senha pá! É sempre a mesma merda! Nós já te conhecemos.
- Desculpem. Não volta a acontecer. Não foi por mal. Esqueci-me apenas.
Artur sentiu a carne do seu rosto a rasgar. O nariz parecia uma fonte jorrando uma mistura de sangue com mucosas, assemelhando-se a um “mar morto” e decadente.
Tombou. Abriu os olhos a custo e ouviu o autocarro a arrancar deixando para traz o fumo sujo que lhe entupiu as narinas.
Levantou-se… as mãos tremiam-lhe cada vez mais. Tentou procurar alguém que o pudesse ajudar.
Não encontrou nenhum licenciado de bata, bem aperaltado, que percebesse de tremores e de dores agudas pelo corpo, e de vómitos e de ataques de pânico, e da teoria da relatividade, e que soubesse explicar a razão pela qual as pombas preferem cagar nas estátuas de pessoas famosas.
Ajoelhou-se aos pés do primeiro chulo que lhe apareceu pela frente, qual súbdito pedindo clemência ao seu único e adorado profeta.
-Só desta vez! Eu juro que é a ultima. Safa-me desta por favor.
- Desaparece seu merdoso. Cheiras mal pá. Vai-te lavar que bem precisas.
- Por favor, tu percebes o que eu estou a sentir. Isto é o inferno.
- Perceber? Eu tenho que perceber alguma coisa pá? Desaparece antes que vás sem dentes.
Artur levantou-se e atingiu o seu suposto profeta com um murro no estômago.
De seguida prostrou-lhe um joelho na face, o que fez com que tombasse.
Numa questão de segundos, já Artur corria em direcção à Ribeira, tremendo ainda mais, tamanha era a adrenalina e o medo, transportando consigo os pertences que conseguiu tirar dos bolsos da sua “vítima”.
Passou pela esquadra da polícia, abrandou o ritmo, penteou o cabelo e entrou. Pediu uma informação como se de um turista se tratasse. Saiu calmamente como um herói, sorridente e bem mais calmo.
Embora ainda não tivesse tomado o seu medicamento, os tremores abrandaram e as dores pareciam agora pequenas cólicas. Artur atravessou a ponte, passou para gaia e andou. Andou….andou…Só deteve a sua marcha ao avistar uma roulote, já próximo da zona habitacional dos pescadores de gaia, onde decorria uma pequena festa em honra de um qualquer santo padroeiro amigo destes trabalhadores.
Artur Aproximou-se da roulote.
-Queria uma fartura ó jeitosa.
-Desculpe?
Artur ficou boquiaberto, não queria acreditar, a menina das farturas era na realidade o chulo que tinha derrubado violentamente, o fiscal do autocarro que o tinha espancado, o policia da esquadra que tão amável havia sido com ele, a velhinha que assaltara no dia anterior, o cliente ao qual havia vendido fragmentos do seu corpo.
Recuou, em pânico e correu na direcção contrária. Artur ouvia os risos de troça. Todos riam dele, todos o apontavam, todos o cuspiam, todos o desejavam, todos o apupavam, todos o espancavam. Artur fugia, agora cada vez mais rápido, tão rápido que se sentiu voar, tão rápido que podia ver as gaivotas ao seu lado a pavonearem esplendorosamente as suas asas. Artur abria as suas e tentava competir.
Adormeceu.

“Artur Faria dos Santos Ferreira Campos, serralheiro de profissão, foi encontrado ontem pelas 20.25 morto em Ardegães, concelho da Maia. O corpo foi encontrado por alguns feirantes, ao passarem por um descampado. “Eu realmente achei esquisito, já há cerca de uma hora que tinha ouvido alguns gemidos, mas pensei que fossem os miúdos ou assim…” Depois de efectuada a autopsia, os médicos apresentaram como causa de morte uma overdose, que segundo cálculos terá tido inicio perto das 16 horas desse mesmo dia.”

Cortesia Jornal Pérolas Para os Porcos

Autor - AntónioEclético
publicado por astropastor às 15:55
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2 comentários:
De Anónimo a 14 de Fevereiro de 2006 às 01:18
o texto adorei, a música não me caiu muito bem, hoje. :) mas gostos são gostos. e se gostar sempre, começa a parecer que sou paga para isto!Milocas
(http://pipokinhacomsal.blogs.sapo.pt)
(mailto:amoraselvagem@sapo.pt)


De Anónimo a 14 de Fevereiro de 2006 às 01:03
Meu querido, meu velho, meu amigo AntónioEclético, brindas-nos com mais uma estória, plena de delirio e perseguição.
À juventude que nos lê e ouve, tenham cuidado. Droga, Loucura, Morte. Deus vos valha, Deus vos valha.astropastor
(http://perolas.blogs.sapo.pt/)
(mailto:)


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